terça-feira, março 15, 2005

Insensível?

O avô da minha mineira está indo embora.
Depois de 90 e tantos anos de trabalho, torcida pelo São Paulo e dança, o velho Caleb está ajeitando as coisas para assumir seu lugar no céu.
Tem sido delicado lidar com ela neste período. De vez em quando dá vontade de mandar tudo à m..., mas aí eu imagino o que deve significar isso e assento o meu fogo.
Digo que imagino por que não tenho nenhum registro de morte nas minhas memórias recentes. Nada que me dê a menor pista do que uma pessoa pode sentir nessa hora. Nem um rascunho de emoção ligada à perda. Nada.

Obviamente isso não quer dizer que nunca ninguém morreu na minha família.
A própria morte do meu avô materno - el tata - aconteceu pouco tempo antes da migração para o Brasil. Ainda me lembro dele na cama brigando comigo. Estranhamente, não me lembro dele em pé.
Pensando bem, talvez não seja tão estranho já que eu tinha só cinco anos e a única coisa desenvolvida no meu corpo era a cabeça. O tamanho, não a inteligência, diga-se de passagem.

Meu tata morreu e eu parti. Uma coisa não deve ter disparado a outra mas foi assim que aconteceu. E aconteceu sem me deixar marcas. Eu só queria saber de rever meu pai e de dar vexame na imigração de Viracopos. Só fui me lembrar de preguntar do tata depois de alguns meses. Mas nem assim eu entendi o que era a morte. Não consegui entender o que causava tanto choro. Não fazia sentido.

Acho que senti alguma coisa quando a avó da Sandra foi embora.
Eu não gostava de visitá-la enquanto ainda estava viva, mas tive que segurar a onda quando ela morreu. Não voltei para casa, consolei a San, dormi fora de casa, carreguei coroa de flores, praticamente ajudei a enterrar o caixão, mas continuei sem sentir nada. As lágrimas não me tocavam. E eu me sentia mal por isso.

A morte de dois companheiros de vôlei também passou batido. Ambos se foram antes dos 18. Ambos tiveram acidentes. Em ambas situações eu mal me lembro deles.

Será que tem alguma coisa de errado comigo ou será que não nasci para lamentar mortes?
Será que nem quando minha mineira, meus velhos, minhas irmãs ou a Letis se for eu vou sofrer?
Quer dizer, nem sei se eu vou estar por aqui quando isso acontecer, mas vocês entenderam a idéia.

Não sei o que pensar. Só quero que quando Hela resolver visitar um dos meus, aqueles que sobrarem venham para o meu lado exatamente como fizemos quando o pai do Rogê perdeu a briga para o câncer. Estávamos todos lá, dando força e chorando a perda. Menos eu, claro, pelo menos no quesito lágrimas, mas isso era esperar demais, né?

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