quinta-feira, abril 22, 2004

Viajando leve

Não me lembro bem onde li isso pela primeira vez.
Deve ter sido em Borges. O velhinho sabia das coisas quando se tratava de reavaliar na velhice os erros da mocidade. Apesar de argentino, ele era bom mesmo. Até na morte ele se superou.

Bom, mas a idéia é falar sobre o que devemos levar quando saímos de casa e nos aventuramos no mundo. Na verdade, acho que é um pouco além disso.
O "viajar leve" não se limita ao sentido prático e literal da coisa. Não é só uma questão de pegar um avião sem metade da casa nas costas ou de encher de colocar até o cortador de grama no porta-malas do carro para um passeio até Mogi.
Vou um pouco além do viajar de um lado para outro. Falo de viver.
Como não é muito complicado entender a vida como uma viagem, é provável que mais algum doido neste mundo pense como eu.

Deixar de lado o que não importa é viajar leve. O difícil é pesar e medir a importância das coisas durante o caminho.
Pra mim já foi muito importante ter e absorver coisas. Colecionar era algo que me dava prazer. De revistas a selos, vivi várias febres de ter e ter que duraram tempos variados. Até mulheres eu quis ter no acervo mas aí a coisa não deu muito certo.
Quando tive que escolher entre destruir e abandonar, preferi mudar os hábitos e fiquei com o segundo.
É basicamente ter só o necessário e "PT saudações".

Andar a pé é viajar leve. Deixar o carro em casa de vez em quando me faz muito bem.
Apesar do barulho da Consolação e dos sujeitos que cruzo estendidos no chão, olhar os telhados das casas é um bom passatempo. O problema é ter que fazer isso com agilidade para não ficar sem a carteira, sem a bolsa e sem a virtude. Mas vale a pena.

Ir a Floripa é viajar leve. A cidade dos meus sonhos tem esse poder especial de fazer eu me sentir em casa mesmo longe da Mansão. Lá não tenho que ser alguém, tenho apenas que ser. Lá todos são.

Fugir de brigas é viajar leve. É muito engraçado deixar as pessoas sem ação ao responder a provocações com um sorriso e com o barulho de passos indo em outra direção. É o máximo devolver indiferença para quem esperava uma mordida. Apesar de já ter adorado morder, hoje eu prefiro usar os dentes para comer.
Aliás, continuo afirmando que só vim para este mundo para comer e dormir. E problema de quem me acha pobre.

A única coisa de que não abro mão e que me faz discordar abertamente de Borges é o tal do guarda-chuva. Se ele acha que é besteira carregar o trambolho por aí, problema dele. Eu é que não vou deixar a minha pequena carcaça encharcada com o tempo doido de Sampa. Nisso eu estou fechado.

No resto, o negócio é viajar leve e curtir mais o caminho do que o destino.
Quando chegarmos a gente vê o que faz.

quinta-feira, abril 15, 2004

Casa comigo?

Ele sempre achou que na hora seria fácil.
Como fanático por futebol que era, na sua cabeça só havia a imagem do Romário na sua tradicional posição de cone, deixando a bola bater no pé e partindo para o abraço. Só era preciso colocar o pé na posição certa e partir pro abraço. Ir para a galera naquela situação era algo mais do que obrigatório.

O cinema também era um grande suporte de coragem e inspiração.
Afinal de contas, quantas vezes ele havia visto o Richard Gere hesitar para pedir a mão de alguém em casamento?
Não era concebível que o Brad Pitt temesse a recusa de alguma pretendente, era?
E o Sean Connery então?

Mas na hora não foi tão fácil. Apesar de já prever o tipo de reação que despertaria, ele ficou bem nervoso quando começou a falar.
Era uma sexta-feira santa. O bacalhau estava na mesa perfumando a copa e todos exibiam um olhar guloso e pidão. A mãe dela havia se esmerado para que tudo estivesse correto e ele também. Um pouco antes de começar a falar, ele tocou mais uma vez a caixinha no seu bolso, respirou fundo e mandou ver.

A mesa estava quase cheia. Faltava uma irmã e a tia, mas ele não podia se dar ao luxo de adiar o evento. A caixinha estava na sua gaveta há tempos e tudo estava certo. Ele simplesmente tinha que fazer aquilo naquela hora.

As saladas já estavam servidas quando ele pediu licença para interromper o almoço. A irmã do meio, a dona da casa, sacou na hora que ele iria aprontar. O resto da família ficou com o garfo suspenso no ar, alface pingando vinagre e tudo.
Demorou um pouco para que eles entendessem o que estava acontecendo e ficou pior quando ele abriu a caixinha e soltou duas palavrinhas mágicas para a mocinha que se sentava à sua direita.
O "casa comigo?" saiu baixinho e tímido, mas foi o suficiente para que todos ouvissem. Se bem que naquela hora não havia nada na frente dele além do rosto comprido e fino da mulher por quem ele havia bancado aquela "loucura".
Na hora ele se lembrou do relacionamento que passou direto da descoberta para o amor. Não houve espaço para a paixão, assim como não havia dúvidas sobre o que ele queria.
Mesmo que a família dela tivesse estranhado a ausência da tradição e tivesse demorado para liberar os cumprimentos, o objetivo havia sido atingido com louvor: ele a amava e agora havia algo para simbolizar o sentimento. Apesar de diminuta, a pedrinha carregava tudo o que ele queria demonstrar.

Na volta pra casa, ele não estranhou a reação meio apática da família e nem a surpresa dos amigos. Tudo pra ele estava no lugar. Ela estava no lugar. A pedra estava no lugar.
Dali pra frente tudo ficou mais fácil.

domingo, abril 04, 2004

Perto e longe

A pizza de hoje à noite foi extremamente sintomática.
Ficou patente que estamos nos afastando à medida que nos aproximamos delas.
Quando digo "nós", me refiro aos grandes companheiros que tenho hoje em dia. Amigos de verdade. Quase como um Erasmo para um Roberto. Na verdade, vários Erasmos para alguns Robertos.
O "delas" obviamente se refere às respectivas companheiras, quase esposas, praticamente habitantes da mesma casa.
É cada vez mais patente que agimos diferente quando estamos com elas na turma. Não sei se é pior ou melhor, só sei que é diferente.

Eu sempre soube que as coisas mudariam quando "crescessemos".
O problema é que nunca imaginei que a operação envolvida seria a subtração. Não que eu esperasse uma multiplicação, mas talvez uma adição poderia ter vindo de forma mais tranquila.
Mas não foi assim. Com elas somos melhores mas diferentes. Tentamos ser igualmente dinâmicos e inconsequentes, mas acabamos na mesma responsabilidade e semi-preguiça de sair do conforto que conseguimos.
Acho que todos ansiamos por essa tranquilidade emocional e agora que a conseguimos ficamos com essa sensação de querer manter os amigos por perto. Ao menos é assim que eu me sinto.
Não que eles estejam longe. Nada disso. Mas é que a coisa está diferente. Nós estamos diferentes. Elas nos fazem diferentes.

Volto a dizer que acho que estamos melhores assim, mas a idéia infantil de turma eterna não deixa de martelar minha cabeçorra.
Hoje em dia não achamos mais que um final de ano em Floripa é nosso sonho de consumo. Ao invés disso pensamos em uma noite fria em Campos, com uma garrafa de Black, um prato de alho e óleo e um quarto absurdamente escuro.
Nada de sair pela madrugada atrás dos que se perderam atrás de um sorriso perfeito. Nada de cavalinhos de pau no carro do amigo que foi parar em uma casa com 15 mulheres. Nada de descobrir o outro amigo num flashback com a ex. Nada de achar que "All I want is you" vai marcar a paixão definitiva.
Nada disso. Nada de adolescência. Só vida real. Só amor consentido e correspondido.
Só sexo com amor. Só noites clandestinas em hotéis franceses. Só almoços em buffets japoneses. Só planos para Reveilon em camas de casal. Só pilhas de latas de cerveja e entradas de ano na inconsciência. Só o prazer a dois. Só tudo que eu sempre quis.

Sei que é gostoso, sei que é melhor, sei que é o que eu quero. Mas por que acho que estamos diferentes?
Acho que sinto saudade do que ainda vou ser. Estranho isso, não?

terça-feira, março 23, 2004

O que quero ser quando crescer

Alguns dias atrás eu vivi uma sessão de psicanálise travestida de análise de desempenho.
Essa é uma daquelas normas empresariais que visam melhorar o clima e incentivar as pessoas, mas que vira e mexe acabam sendo razões para perda de motivação e ameaças de morte para os chefes/avaliadores.
Dentre o monte de abobrinhas, coisas insípidas e bons conselhos que meu chefe me deu, uma coisa me chamou a atenção e faz pensar até hoje: o exemplo a ser seguido.

Esse papo surgiu depois que eu reclamei de algumas diferenças que me pareciam injustas.
Como um mestre russo de xadrez, meu chefe me deu uma resposta impossível de ser rebatida ou contestada e tive que colocar meu rabinho entre as pernas. Ainda bem que juntamente com a “chamada” ele me incentivou a buscar um objetivo diferente daquele que eu ensaiava seguir. Segundo ele, a diferença atual “estava” mais do que “era” e que valia mais a pena pensar em me inspirar em quem ainda poderia ser.

Acabei transportando isso para a vida pessoal e vi que realmente vale mais a pena me comparar com quem ainda tem cabeçadas a dar. Apesar da diferença financeira cutucar meu bolso como bicho geográfico, talvez seja melhor pensar em quem eu posso admirar sem inveja e culpa.
Isso me levou naturalmente a pensar no Professor. Parece incrível, mas novamente vou ter que falar bem desse careca miserável.
Mesmo que ele me encha o saco a cada vez que o meu Tricolor perde ou os times dele (Corinthians e São Caetano) ganham, cada vez acho mais positivo tratá-lo como um irmão e não como um colega de trabalho.
Quem me conhece bem, sabe que para mim existe uma distância enorme entre amizade e coleguismo, principalmente no trabalho.

Apesar de participar das palhaçadas e de fazer questão de relaxar o ambiente de trabalho através das mais infantis brincadeiras que o mundo corporativo jamais viu, acho que deve ser divertido para o pessoal em volta assistir a criação de uma piada a cada bronca de chefe ou exigência esdrúxula de usuário. É só o danado desligar o telefone que a dupla de crianças invente uma piada ou cante o trecho de uma canção.
A gente realmente age mais como irmãos (ou amigos de infância) do que como colegas de trabalho. E olha que a gente quase nunca se encontra fora do trabalho!!!
Deve ser por dó das nossas respectivas companheiras. Nem elas merecem tanta asneira.

Não posso chamar de projeto de vida, mas tem algumas coisas que ele faz ou fez que me despertam a vontade de experimentar e ver no que dá. O casório é a primeira delas. Não sei se Ele vai permitir que meus planos se concretizem, mas espero poder atingir a mesma paz e felicidade que ele demonstra ao falar da “artista” com quem se casou.
Até mesmo as discussões que eles têm são motivo de admiração já que invariavelmente acabam sendo motivos para visitar um restaurante legal ou uma loja bacana.

Um passarinho verde me contou que a nossa “irmandade” não vai durar muito tempo, mas vou fazer o que puder para continuar servindo de referência para os restaurantes escolhidos para as comemorações e para receber em troca os conselhos de quem já aprendeu a entender e conviver melhor com os caprichos da alma feminina.

Espero que a recíproca seja verdadeira, Professor!

sexta-feira, março 19, 2004

Intensidade

Aquela pinta no lado esquerdo da boca dá a ela um jeito meio Cindy Crawford de ser.
O jeito como ela arruma o cabelo longo e castanho é impossível de não ser notado.
A risada está a meio caminho entre o tímido e o escrachado, sempre com pouca preocupação com o que os outros podem pensar.
Até a mania de puxar a mini blusa, que teima em subir e mostrar a sua pele branca, a faz ficar mais charmosa.

Apesar de ter falado dela com fingida propriedade, mal conheço a moça da pinta na boca.
Na verdade, eu conheço mais a sua obra do que a autora. Não que ela seja menos interessante do que a obra, isso está anos-luz longe da verdade, mas é que ainda não tive oportunidade de saber muito mais do que todo leitor sabe.

Ela escreve e bem em um lugar muito popular. Escreve sobre relacionamentos, sentimentos e as conseqüências de ambos. Acredito que, assim como eu, ela escreva sobre o que vive ou use alguns elementos da sua vida para criar estórias sobre coisas que interessem às pessoas.
Já li coisas sobre casamento, sexo, alegrias extremas e nomes esquisitos. Houve também palavras sobre a traição e sobre o desamor.
Tudo no mesmo estilo emocional, tudo da mesma forma passional, tudo com o mesmo jeitinho fingidamente seguro.

Das poucas coisas que sei, a maioria não me foi dita pessoalmente.
Talvez não maioria do que realmente importe, mas certamente a maioria do que vou mencionar aqui.
Sei que ela foi casada com um cara com quem sonhou durante anos.
Sei que ela foi muito feliz, construiu sonhos, visitou lugares, dirigiu por países de língua estranha e aprendeu a cozinhar divinamente.
Sei que deixou de amar uma pessoa e passou a amar outra, sem muito tempo para colocar as coisas no lugar entre um relacionamento e outro.
Sei que ela não faz nada que não seja intenso, forte, quase extremo.
Sei que ela não tem vocação para ser a outra, mesmo que isso signifique abrir mão do grande amor da sua vida.
Sei que ela é de Touro, mas prefiro não descobrir muito mais coisas neste setor.
Sei que seu nome mudou de acordo com as migrações dos seus ancestrais e que hoje a confundem com uma colônia devido a um certo detalhe anatômico.
Sei que ela tem três tatuagens, três gatos e vários livros empacados na vigésima página.

Com tudo isso que sei, ainda não dá para dizer que sei algo que realmente importe.
Ainda não posso dizer que a conheço ou que sou seu amigo.
Espero ter a oportunidade de seguir aprendendo as coisas que estão por trás daquele jeito Cindy Crawford de ser.

quinta-feira, março 11, 2004

Bonzinho

Aviso: o entendimento deste texto obriga um mínimo de conhecimento sobre a série Dawson´s Creek!!

Durante todas as cinco temporadas, ele foi o cara mais correto, leal e honesto de toda a Costa Leste americana. Tudo nesse era certo, do cabelo bem cortado até o sorriso controlado. Nada ficava fora do lugar e ninguém conseguia encontrar motivos para duvidar de algo que ele tivesse feito.
Ele era o protótipo da perfeição. O cara bonzinho em pessoa. Acho que foi por isso que a Joey escolheu o Pacey: caras certinhos são muito chatos!!

O tal do Dawson era tão quadrado que até minha irmã cineasta, que gravava os episódios e assistia até decorar as falas, ficava bufando impaciente enquanto ele aparecia na tela.
Acho que contei uns 15 chifres, 25 foras e 45 cenas em que ele aparecia sozinho, olhando para o vazio em algum pier ou lagoa.

Isso me leva crer que o mundo não foi feito para os bonzinhos. Acho que já escrevi sobre isso, mas como o blog é meu, cá estou eu remoendo o mesmo tema de novo.
Parece que não adianta ser o mais legal, o mais companheiro, o mais amável e o mais confiável.
Cada vez mais eu me dou conta que as mulheres não querem esse tipo de cara.

Um grande amigo meu acredita que qualquer tipo de relacionamento necessita de algum tipo de insegurança para existir. É preciso que as pessoas não estejam 100% seguras de que o parceiro vai estar ali sempre que eles quiserem e/ou precisarem.
A idéia de poder perder torna ainda mais valioso o ter e faz com que se cuide mais do que se tem.
Apesar de parecer doideira, isso tem todo o sentido do mundo.
Basta ver o que a Joey fez com o Dawson. Ela sabia que ele sempre estaria ali e por isso escolheu o Pacey.
O Dawson não representava um desafio e isso desvalorizava aquilo que a Joey acreditava ser.
Já o Pacey nunca ficou babando pela magrinha. Ele mostrava que a queria mas que não pagaria qualquer preço para tê-la. Ele colocou a responsabilidade nas mãos dela.
No final das contas ele se deu bem.
Acho que todo mundo que representa um certo desafio acaba se dando bem.

E os bonzinhos sobram para fazer filmes e escrever blogs.
Ainda bem que faz tempo que deixei de ser bonzinho.

sexta-feira, fevereiro 27, 2004

Meus quinze anos

Em algum dia de Março eu completo quinze anos.
Infelizmente não são 15 anos de vida. Acho que não teria graça viver aquela "cabascência" de novo.
Felizmente não são 15 anos de namoro. Ninguém sobreviveria tanto tempo ao meu lado.
Na verdade não é nada tão trágico e definitivo. Trata-se apenas do 15º aniversário do dia em que conheci meus amigos de faculdade.

Antes de cometer uma injustiça, tenho que lembrar que um desses meus amigos leva três anos de vantagem com relação aos demais: a gente fez colegial juntos, o que leva o aniversário para a maioridade, mas ísso é papo para outra hora.
O que quero lembrar aqui é a razão de já terem se passado 15 anos e de eu ainda curtir a companhia de cada um daqueles caras.

Uma das possíveis razões é a relação com as piadas.
Nenhuma pessoa que conta a mesma piada há mais de dez anos e ainda te faz rir pode ser menos do que especial.
Acho que até as esposas seriam capazes de contar as piadas com o mesmo estusiasmo e nível de detalhe que a gente faz desde o começo.
Conseguir fazer com que elas achem graça daquelas barbaridades é digno de Oscar.

Infelizmente não temos nenhuma festa memorável no nosso histórico estudantil.
As únicas que rolaram foram no último ano e eu fui impedido de ir por ordem da "sargento" que eu chamava de namorada.
Essa mesma "sargento" me privou de risadas sensacionais durante os micos na Juréia e nos bailes de Iguape, mas também não quero gastar espaço para falar de algo que não me traz alegria.
A hora agora é de festa, de celebração e de bons fluidos. O que passou passou.

Lembrando dos papéis de cada um na turma lembro que não éramos lá muito comuns.
É claro que havia o galã, o semi-neurótico, o gênio e o grandão inofensivo, mas o resto de nós não podia receber outro adjetivo a não ser o quase insosso "normal".
A maioria de nós era normal e não recebia estereótipos.
Isso mudava um pouco quando resolvíamos estudar juntos. Aí as habilidades de cada um vinham à tona: um fazia as colas microscópicas, outro "debugava" a matéria e esclarecia as mentes dos demais, outro ficava desesperado e os demais jogavam videogame.
É impressionante como, depois de tantas partidas de Mario, tantas esfihas, tantos litros de coca e tantas pizzas, todos tenhamos conseguido chegar ao fim do curso.
Acho que era para ser. Era para continuarmos juntos até o fim.

Como não sou ninguém para contrariar desígnios divinos, aproveito para dizer aos membros do clube que, aconteça o que acontecer, vai ser bem difícil eles se livrarem de mim.
Pior: vai ser bem difícil um se livrar de outro!!

Que venham outros 15 anos e que as piadas sigam as mesmas!!!

quarta-feira, fevereiro 04, 2004

O que importa de verdade

Moro no Brasil desde 77. Era mais ou menos na época em que o Travolta estava "mordendo" as meninas que davam mole nas noites de sábado e que o Rocky estava fugindo da fonoaudióloga para paracer "mais natural".

Vim para cá não mais do que um pivete. Ainda sou pequeno mas certamente tenho muito mais estórias para contar.

O que eu gosto no Brasil?
Amo as curvas da geografia e da anatomia, o futebol, o tutu de feijão da minha "sogra", os pés de galinha da minha mineira, os litros vividos com os amigos, o talento "pra dentro" da minha irmã cineasta e os dentes ainda meio indefinidos da menina com nome de sentimento.
Tudo isto é Brasil pra mim.

Se este país tem tanta coisa que me agrada, por que diabos eu ainda me sinto tão ligado à terra natal?
Por que será que aquela coisinha minguada, espremida entre a montanha e o mar me causa tanto fascínio e faz tão parte do que fui, sou e serei?

Essa não foi exatamente a razão que me levou àquela parte do mundo neste mês que passou, mas já que eu estava por lá, não custava fazer uma pesquisa interna.
Por falar em motivos, os parentes estavam todos vivos e bem. Alguns meio cansados, outros um pouco mais gordos, alguns mais bonitos do que eu esperava (minha menininha) e outros ainda mais insuportáveis. Feliz ou infelizmente eles são a minha família e às vezes dou graças a Deus por tê-los. Longe, é verdade, mas tê-los.

Busquei razões na comida. Não foi nada difícil sentir algo diferente ao me deliciar com o congrio frito, com o mariscal frio, com as humitas, com o pastel de choclo, com as machas a la parmesana, com as empanadas de pino, com a cazuela de ave, com a ensalada de centollas e com os porotos granados. A minha mineira ficou especialmente apaixonadas por estes últimos, o que constitui um sério risco à camada de ozônio já que eu também não fico por menos nesse quesito.
Só para não deixar escapar nada, ainda testei o efeito do melão calameño, dos duraznos e das ciruelas.
Tudo tinha o toque de que eu me lembrava. Tudo remetia à infância e ao meu avô que me chamava de huesillo e do qual eu não me lembro fora da cama. Isso se explica por que eu tinha 5 anos quando ele morreu (após um longo período "de molho") e quando a minha mãe me levou para longe. Para o Brasil.

Parece incrível, mas até mesmo as rucas indígenas do sul e o ar seco e poluído da capital ainda me faziam um bem que eu não sei descrever direito.
Eu sou aquilo, mais ou menos da mesma forma que sou isto também. Sou o tropical e o temperado, o É o Tchan e o Inti Illimani, o Zico e o Caszely. Sou ambos e me orgulho disso. Por mais paradoxal que isso possa parecer, sou dois ao mesmo tempo e não vivo nenhum conflito.
Sou feliz sendo dois.

Y viva Chile, mierda!!!

Achei que esta seria uma boa maneira de voltar ao meu amado e esquecido blog.
Não vou prometer mas vou me esforçar para aparecer por aqui (e no Vinil) ao menos uma vez por semana. Valeu.

terça-feira, janeiro 06, 2004

Final de ano

O ano acabou de começar para mim.
Na verdade ele começou para todo mundo, mas como minha influência não chega até o sétimo grau de separação, vou me concentrar um pouco no micromundo da minha grande cabeça.

O final de ano foi bom. Aliás, ele sempre é bom.
Por mais que algumas cicatrizes pelo corpo, olhos injetados e fígados detonados queiram emitir opiniões contrárias, sempre acho que as festas de final de ano servem como uma espécie de redenção para tudo o que rolou antes.
Conheço gente que não gosta do Natal por que sente pena de quem não tem o que comer ou vestir nessa época. Prefiro pensar que devemos cuidar dessas pessoas durante o ano inteiro e não sentir culpa da nossa própria felicidade na "presença" do Papai Noel. O Natal é época de fé e felicidade e ponto!

Gosto do Natal por que posso agradar aos meus de uma forma diferente do convencional. No Natal eu fico mais em casa, dou presentes legais, como pantrucas (essa só os chilenos decifram), divido um vinho com o velho e tento convencer a velha a experimentar e ficar alta.
Não gosto muito de ver meu pai colocar os presentes de lado e deixar que a minha mãe os abra, mas não acho que dê para mudar isso nele. Ele aprendeu desse jeito e precisa querer para aprender algo diferente.

Gosto do Reveillon por que todo mundo se enche de fé, de projetos e de promessas. Por mais que tudo isso seja esquecido depois da ressaca, gosto de saber que pelo menos na noite da virada as pessoas se dedicam a pensar no bem.
No Reveillon posso abraçar meus amigos sem medo de parecer gay e distribuir beijos como o Edu gosta de fazer.
Logo eu que me orgulho de passar o ano inteiro só beijando um homem: meu velho.

Gosto do espírito de renovação da época, das comidas da época, das ondinhas que pulamos (e que eu não pulei), das cuecas e calcinhas novas, de comer lentilhas, uvas e romãs, de estourar a champanhe até que ela azede de tão sonsa, de beber como um desvairado, de beijar na boca e de abraçar quem se ama de uma forma bem apertada.

Não gosto da idéia de ter abraçado a minha mineira na virada e de não ter sido abraçado em volta, mas os anos que vêm estão aí para corrigir este deslize.
Quem sabe no próximo não é ela que me beija enquanto eu estiver inconsciente pelo excesso de capiroska de limão??

Ah, um último gosto dessa época do ano: achei muito engraçado ser o primeiro a dar um "abraço" de ano novo para a Gabi e para o Milk, os malteses da casa.
Poucos teriam esse privilégio.
Morram de inveja!!!!

segunda-feira, dezembro 22, 2003

O amor vence

Ontem eu fui ver um filme que me fez muito bem.
Não tenho passado por muito momentos onde seja necessária uma injeção de ânimo, mas esse filme foi exatamente isso. Saí da sala com o coração tranquilo, a alma lavada e os olhos idem. Fiz força para não chorar e não dar vexame na frente do casal de amigos que estava comigo.

O "culpado" pela choradeira foi o bobinho "Simplesmente amor".
Digo "bobinho" por que se trata de mais uma comédia romântica americana com o mesmo final feliz que a mulheres adoram ver e o mesmo humor inglês que eu adoro ver. O fato de contar com o Hugh Grant é uma grande qualidade já que aproxima o filme do meu grande favorito, Quatro Casamentos e um Funeral.

O filme é repleto de estorinhas de amor que só não enchem o saco por que são justamente estórias de amor. Acho que até o fã do Jason e Freddy Krueger gosta de saber que em algum lugar alguém pensa em amor de vez em quando.
Me arrisco a dizer que até esse tipo de louco tem uma menina ainda mais louca para atazaná-lo e fazer da sua vida um delicioso inferno.

Não tem como não gostar de estórias de amor.
Não tem como não rir com o inglês bobalhão que só decide correr atrás da mulher da sua vida depois que ela vai embora.
Não dá para não se sentir bem ao ver alguém dando um chute na bunda dos americanos e botando-os para correr só por que sentiu ciúmes da amada.
Não para não comemorar o final do bonitão do filme: ele é um dos únicos que fica sozinho. E tudo por causa de um outro tipo de amor.
Não dá para não vibrar ao ver gordos, magros, feios, bonitos, casados, solteiros e todo tipo de aliens se amando sem parar.
É claro que o sexo entra na mistura (graças a Deus), mas foi o amor que me energizou. Foi o amor que me fez esconder o rosto do Presidente para não ser zoado.
É o amor que me faz pensar tanto em você, Branca.
É o amor que me leva até você enquanto você não vem.

É o amor e sou grato a Ele por isso.

sexta-feira, dezembro 19, 2003

Na boa

Acho que estou ficando velho!!
Ontem rolou a festa de confraternização da empresa.
Por mais que os números não fossem muito favoráveis para quem estava a fim de confraternizar mais com pessoas do sexo oposto (eram seis homens para cada coitada), me espantei com a minha pouca disposição em fazer algo além de admirar decotes, adereços e aberturas de roupas.

Antes que alguém comece a falar inverdades a respeito da minha masculinidade, acho bom ressaltar que continuo gostando muito da fruta (para alívio e felicidade da minha mineira). O problema é que não tenho mais paciência para chegar perto de alguma mulher interessante e puxar papo nem que seja só para passar o tempo.
Na verdade eu nunca fui muito bom nessas coisas de paquera e conquista. Minhas chances sempre foram maiores quando a moça tinha a oportunidade de conviver comigo.
Como me considero até um pouco antipático, não é de se espantar que o "professor" receba muito mais sorrisos e tentativas de puxar conversa. Essa não é a minha e pronto!!

Na tal da festa, além de fugir assintosamente de todas as dezenas de litros de whsiky que passavam com insistências nas bandejas dos garçons, eu me deidiquei a conversar com os poucos amigos, dançar com alguns conhecidos e tirar sarro dos velhos ridículos que acham que roupa de festa é um blazer cinza em cima da roupa de trabalho.
Meu único contato mais próximo com um ente do sexo feminino foi quando a secretária do terceiro andar se jogou em cima de mim para fugir de um tiozinho meio impertinente e quase me matou de rir ao dizer que estava "bebaca".
Como sempre fui devagar, nem pensei que ela queria algo mais e já tratei de levá-la até um canto mais calmo do salão e deixá-la aos cuidados de uma amiga.

Tenho a impressão de que estou mesmo ficando velho!!
Ou será que estou mais concentrado em interesses menos adolescentes??
Que a minha mineira responda!!

quarta-feira, dezembro 17, 2003

Olhos verdes

Ele sempre foi um enorme paradoxo na nossa turma da faculdade.
O enorme pode ser interpretado em diversos sentidos quando se fala naquele cara.
Os anos de surfe aliados a uma genética privilegiada garantiam a posição de maior e mais forte do grupo. A justificativa do paradoxo vinha do temperamento gentil e dócil que ele tinha. Na verdade ele segue tendo esse temperamento, mas o casamento, o filho e os empregos estressantes e milionários mudaram um pouco o shape do garoto.
Uma das tiradas mais engraçadas dos tempos da faculdade é que o comparava com um touro de um desenho da Disney: o touro Ferdinando era o mais forte da fazenda e podia colocar medo em qualquer ser vivo só de olhar para ele; felizmente para os outros, o passatempo preferido do Ferdinando era sentir o cheiro das flores e dar passeios pelo campo. Uma verdadeira moça em corpo de gigante.
Era mais ou menos assim que sempre vimos aquele cara.

Além da gentileza de meninão, era a dedicação às paixões que mais chamava a atenção de quem convivia com ele.
Se não era o surfe era o Palmeiras. Se não era o Mack era a Juréia.
Infelizmente meu relacionamento com uma certa sargenta me impediu de conhecer a casa da praia, mas sei que foi lá que a vida dele começou a mudar. Fói lá que ele conheceu uma certa mulher que mudaria a sua vida para sempre e que o faria feliz por um pouco mais de tempo do que sempre.

Pelo que me lembro, ela era irmã de um companheiro de surfe dele.
Não sei bem por que ela frequentava aquela praia distante, mas certamente a comissão técnica do céu tem algo a ver com isso.
Outra coisa que está bem fresca na memória é o fato dela ter nascido com algo proibido para alguém como ele, tão cioso do respeito e do cuidado com os outros.
Para infelicidade inicial dele, ela tinha namorado!!
Não vale a pena citar o que rolou ou deixou de rolar até que eles pudessem ficar juntos sem se esconder de ninguém. O importante é que eles ficaram livres para entregarem a liberdade um para o outro.

O capítulo seguinte desta estória de amor é meio triste para mim: não pude ir ao casamento deles por que estava passando uma "maravilhosa" temporada de trabalho na minha "amada" Manaus.
Como meu desgosto por esta fase da minha vida ainda é grande, este parágrafo vai acabar depois de deixar registrado que todos os nossos amigos estavam lá para testemunhar o primeiro casamento da turma. Muitos outros vieram depois, mas o primeiro sempre fica marcado na memória de todos. Para o bem ou para o mal.

A chegada do primeiro herdeiro veio para coroar algo que já era bom.
Oivi-lo descrever a paternidade com um "legal" meio abobalhado não necessitava de tradução ou complemento. Tudo estava dito naquela única palavra.

Nunca tive certeza se ele sabia da admiração que sinto pelo que é e pelo que realizou, mas talvez esta seja a oportunidade prefeita de deixar isso para que todos vejam.
Admiro a luta que ele encarou para ter a mulher que amava. Admiro o tipo de vida que ele escolheu. Admiro a coragem de ter sido o primeiro a se casar e o primeiro a ser pai.
Admiro o brilho infantil que ainda sai daqueles olhos verdes, mesmo depois da partida de alguns cabelos, do surgimento de algumas rugas e da chegada de alguns quilos.
Admiro a alegria que sinto quando estamos juntos e admiro a possibilidade de chamá-lo de amigo.

Te admiro, bicho. Ponto final.

sábado, dezembro 06, 2003

Planos de futuro

Tenho falado muito de futuro ultimamente.
Antes de agora, quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, não havia muita razão para mudar o discurso tradicional: eu queria trabalhar, estudar, ganhar dinheiro, comprar coisas, curtir a vida e encontrar alguém para amar.
Hoje em dia, por mais soltas que pareçam as idéias, me é muiot mais fácil saber o que vou fazer. Quer dizer, não sei lá muita coisa, mas não estou muito preocupado com isso.

Meus amigos-irmãos estão sintonizados com meu momento e percebem que meu olhar pede que eles me perguntem. É mais ou menos como se eu quisesse que todos soubessem, mas sem perder o charme da discrição.
As perguntas são, invariavelmente sobre o futuro com a minha mineira.

Recentemente, meu melhor amigo ficou de queixo caído quando eu falei bem sério que tinha a intenção de deixar Sampa para buscar a confirmação prática de algo que já sei no coração.
Por mais que eu já tivesse falado que poderia fazer isso, o fato de ter usado cores tão sérias, quebrou as pernas do brother.
Por mais que ele deseje a minha felicidade e saiba que os motivos são bastante justos, não foi possível esconder o desejo de "reverter a situação", de virar o jogo e fazer a mudança focar São Paulo e não Minas.
Sei que ele fez isso por que gosta de mim, mas fui muito consciente quando decidi que o primeiro passo será para fora.

Quando falo em primeiro passo me refiro a uma tentativa.
Assim como não dá para ter 100% de que tudo vai continuar funcionando com a minha mineira, não dá para saber se vou conseguir encontrar o que fazer longe da minha "cidade natal".
Sinceramente, não estou preocupado com isso. Estou muito tranquilo e sem pressa. Vou dar um passo de cada vez e não quero saber de milimetrar os detalhes do ano que vem.
Ao contrário, quero terminar este ano em grande estilo, visitar minha vó do lado de lá dos Andes, voltar e ver no que dá.

Hoje é sábado, estou aqui em Ubercity, sozinho em casa, mexendo no computador enquanto minha cara-metade está estudando. Me sinto como em um ensaio do que pode vir e me sinto muito bem.
Ontem um grande amigo, quase um amigo-irmão, me disse que só existe uma coisa que é obrigatória nesse processo: a geladeira da casa nova.

Se essa for a maior das minhas preocupações, 2004 vai ser muito fácil de ser vivido.

segunda-feira, novembro 24, 2003

Estar acostumado

Neste final de semana acabei sendo um pouco rude demais com a minha mineira.
Acredito que não havia muita justificativa para o destempero que rolou, mas meu atual estado de stress potencializou algo que poderia muito bem ter sido resolvido com muita conversa e alguns beijos.
O fato é que fiquei nervoso pela insistência dela em dizer que não estava acostumada a fazer determinada coisa e que por isso não havia como fazê-la direito.
Ao invés de brigar, teria sido muito melhor se eu tentasse fazê-la entender que nem sempre a gente faz somente coisa com as quais se está acostumado.

Por mais que eu não goste de grandes mudanças, tenho consciência de vivo uma dicotomia ao exigir de mim mesmo um grande poder de adaptação a qualquer nova situação que eu viva.
Talvez eu consiguisse viver melhor sem essa exigência toda, mas aí não seria eu, não haveria o gosto de ser crica e "analítico".
Não importa se é um novo caminho para casa, se é um novo emprego que encaro ou se é um novo relacionamento que se inicia. Sempre procuro me adaptar o mais rápido possível para que a situação me cause o mínimo de prejuízo ou sofrimento.
Tenho a impressão de que isso tem a ver com sobrevivência (grande Darwin).

Voltando à bronca do final de semana.
Por mais doce que seja, a minha mineira gosta de insistir nessa linha de não estar acostumada com algumas coisas.
Isso costuma me incomodar um pouco, mas desta vez foi complicado. Eu diria que pode até ter sido justificado, mas certamente foi exagerado.
Tenho que tentar entender que talvez essa seja a verdade dela, que talvez ela não entenda isso como uma exigência a cumprir, que talvez ela viva melhor assim.
Acho que esta última frase resume bem o que esta questão deve conter: se a pessoa vive bem com seu próprio grau de adaptação às coisas e situações, que seja assim e que ela continue feliz.

Vou tentar passar isso para a minha doce mineira.
Algo me diz que ela vai entender.

sexta-feira, novembro 21, 2003

Falta

No final de semana passado eu assisti à parte final do Matrix.
Não quero ser espírito de porco e estragar o prazer de quem ainda não conseguiu ver o Revolutions, por isso vou me concentrar apenas em um aspecto do filme.
Na verdade, o que me chamou a atenção nesta nova chuva de efeitos e kung fu acrobático já tinha aparecido no segundo de forma bem intensa: me refiro ao amor da Trinity pelo Neo.

Apesar disto (o amor) ser muito mais legal quando envolve duas pessoas, não acho que o Neo tenha dado muitas demonstrações de que ama a dona daqueles olhos verdes e estilo impecável. Talvez tenha algo a ver com a "expressão dramática" do Keanu Reeves, mas sempre achei que ela o amava com muito mais intensidade.
O amor dela é cheio de sacrifício e entrega. Ela seria capaz de morrer por amor a ele e isso é para poucos.

Entendo que o amor também é feito de um pouco de sacrifício, nada em exagero, nada que o torne mais um carma do que um benefício. Apenas um tempero para que a coisa fique mais valorizada.
Também acredito que uma das formas mais intensas de demonstrar o amor é sentir falta dele.
É aí que eu me aproximo um pouco da Trinity. Ela fez o diabo para salvar o tal do Neo e tudo foi em nome do amor. O reencontro deles deixou bem claro o valor que ela dava para aquilo que eles tinham. Aquilo era a vida dela.
Não tenho a menor pretensão de ter aqueles olhos nem aquele estilo, mas sinto falta do amor e seria capaz de muitas coisas por ele.

Obviamente temos algumas diferenças básicas: o dela estava lutando pela vida dentro de um mundo virtual e o meu está "apenas" a 600 longos quilômetros de mim. Não é nada mortal, torturante ou coisa parecida, mas de vez em quando pinta uma dorzinha fina lá no fundo.
É mais ou menos como se uma agulha fininha ficasse me espetando quando me lembro que ela está ao alcance do telefone mas não do meu beijo.

Tenho sentido mais do que deveria a passagem dos tradicionais 15 dias.
É certo que as luas-de-mel que fazemos de vez em quando ajudam a aumentar o impacto da falta, mas está ficando complicado viver à distância.
Acho que chegou a hora de fazer algo para arredondar isto. Talvez seja a hora de crescer de verdade.
É claro que isto não significa que vai rolar algo impensado ou definitivo. Apenas vou dar um jeito na distância e me concentrar nos outros aspectos desta dinâmica.
Não vai mais haver desculpa para não almoçar em algum self service na quarta ou tomar um chope rápido na quinta à noite. Não vai ser mais impossível marcar um cinema ou algo mais romântico na sexta.

Talvez isso seja o começo de algo mais.
Não é impossível que seja também o fim de outras coisas, mas prefiro deixar isso nas mãos Dele.

quinta-feira, novembro 20, 2003

Sinais

Ontem eu recebi uma espécie de sinal de que as coisas boas do passado sempre podem voltar a nos alegrar quando não estamos exatamente nadando em felicidade.
Não estou em uma semana muito feliz e receber a visita inesperada do meu ex-chefe soou como um alento.
Nunca fui muito fã de chefes, mas ver o "espanhol" na minha frente depois de mais de um ano da sua partida para a terra natal, foi estranhamente satisfatório.
Não é de se estranhar que hoje eu me lembre dele mais como amigo do que como ex-chefe.

Ele continua magrão, meio careca (como eu), com os dentes meio encavalados e branco como cera.
Nosso principal assunto continua sendo o futebol e parece que nosso reencontro nos deu sorte a ambos: mal no encontramos e a Espanha marcou o primeiro gol contra a Noruega.
Isso me fez recordar das "conversas sérias" que tinhamos durante a Copa. Todos se espantavam quando ele atravessava o andar e vinha debater os resultados do dia anterior e os prognósticos para o dia seguinte.
Foi engraçadissímo quando cada um de nós preencheu uma tabela da Copa com seus próprios gostos. Na dele, a Espanha finalmente seria campeã e em cima do Brasil.
Na minha, era Brasil de ponta a ponta.

É engraçado pensar que só quando todos sabíamos que ele ia embora é que eu baixei a guarda e me permite uma aproximação. Ele era tão ou mais zeloso das coisas do trabalho quanto eu e por isso raramente nos víamos fora do ambiente de trabalho.
Ainda bem que deu tempo de levá-lo até O Velhão e deixá-lo embasbacado com a enorme quantidade de comida.

Hoje me lembro com saudade dos primeiros anos na empresa.
Era tudo mais inocente e divertido. Eu era mais imaturo mas não sofria tanto com a vontade de fazer as coisas certas.
Talvez a volta dele signifique mesmo que eu deva relaxar mais e deixar as coisas andarem mas livres.
Talvez seja um sinal para que eu relaxe mais.
Talvez...

quarta-feira, novembro 19, 2003

Missões

Estou terminando de ler o Senhor dos Anéis e finalmente o nanico do Frodo conseguiu fazer aquilo que ele passou o livro inteiro esperando. Finalmente ele conseguiu dar um jeito naquele anel lazarento e agora ele pode voltar à sua vidinha normal no Condado, em meio a atividades muito estressantes como tomar café da manhã cinco vezes e ir até o rio para pescar o almoço.
Ainda não cheguei ao final do livro e devem rolar mais algumas aventuras para cada um dos componentes da Sociedade, mas o Frodo já não precisa fazer mais nada. A sua parte foi devidamente cumprida e os outros devem se esforçar para chegar perto daquilo. A sua missão foi cumprida.

O primeiro pensamento que me veio à mente quando imaginei o Um Anel caindo foi a possibilidade de que cada um de nós venha para este mundo com alguma espécie de propósito, com alguma missão qualquer.
Mesmo que essa tal missão seja teoricamente irrelevante se comparada com a paz mundial ou com a erradicação da fome, o significado pessoal dela deve ser crucial para a vida de cada pessoa.

Sempre achei que eu tinha saído lá dos recônditos da minha mãe para realizar algum tipo de ato heróico.
Não sei bem por que, mas a imagem de uma cena de luta contra o mal, de conquista esportiva extrema ou de fama irrestrita sempre esteve presente na minha cabecinha doida quando eu pensava no futuro.
Talvez essa seja a grande razão de eu me emocionar facilmente quando o Brasil ganha algum jogo dramático ou quando alguém supera seus limites em uma competição.
É certo que eu me emociono até em filme da Sessão da Tarde, mas isso é outro assunto.
A intenção aqui é questionar a existência de missões pessoais para cada um, missões sem as quais a pessoa não possa completar sua passagem pela vida. Talvez isso tenha a ver com o conceito de carma, reencarnação e a continuidade da vida. Talvez seja só coincidência.

Tenho uma visão meio pessimista e umbiguista sobre a minha própria missão: me vejo mais como sendo responsável pela felicidade de outras pessoas do que pela minha própria. Sinceramente, acho que sou mais eficiente nos outros do que em mim.
Não costumo questionar a validade dessa idéia. Não questiono a possibilidade de não conseguir ser exatamente feliz.
Ao invés disso eu procuro fazer a minha parte nas coisas que tenhoa algum controle. Procuro fazer o que me cabe e confiar Nele.
Se com isso vou conseguir desmentir meu próprio pessimismo ancestral, eu não sei.

Mas será que alguém aí sabe?

terça-feira, novembro 11, 2003

Sincronizando

Mais uma vez "Sex in the city" me inspirou a escrever alguma coisa relacionada a sentimentos e relacionamentos.
Ando meio que precisando de inspiração externa. Tenho sofrido o efeito de uma tríade de contra-incentivos, as populares faltas: falta de tempo, falta de assunto e falta de vontade.
Se ao menos meus dois ou três leitores pudessem me sugerir algum assunto....

Mas não é por isso que volto a falar sobre a Kerri e suas amigas.
O sono que sinto hoje é consequência direta do aviso da minha irmã de que às 22:50 começava mais um episódio inédito (no Brasil) da quarta temporada. Como fiquei meio viciado nas estorinhas rápidas do seriado, não consegui resistir e tive que deixar minha cama esperando por mais algum tempo.
Isso me custou a ida à academia, mas acho que ela vai continuar no mesmo lugar hoje à noite.

A cada episódio que vejo, fico com mais certeza de que não me interesso muito pela devoradora de homens, pela certinha carente e pela mega-profissional que não se preocupa muito com nada. Por mais que essa última se pareça muito comigo, o que eu gosto mesmo é de ver os conflitos da Kerri, moça descolada, inteligente e independente que está tendo que aprender a adaptar a sua vida à presença de outra pessoa.
É muito legal vê-la sofrer com suas próprias decisões e ficar meio louca com a presença do namorado dentro da sua casa. Foi ela mesmo que o convidou para morar naquele apê (acho) e por isso mesmo o conflito de interesses e desejos acaba sendo exclusividade dela.

Mesmo que algumas amigas gostem de pensar que o amor é combustivel suficiente para garantir o sucesso de qualquer relacionamento, eu acredito que não é só aí que outras coisas acabam sendo igualmente importantes. O que vi na TV ontem me mostrou que o sincronismos entre as expectativas e as necessidades dos "adversários" têm igual ou maior importância do que os mais puros sentimentos românticos.
Digo isso por que a Kerri ama o Aidan e vice-versa. Ela o ama tanto que abriu mão de um pouco da sua liberdade para tê-lo mais junto e presente. Ele a ama tanto que quer se casar com ela.
Foi exatamente aí que o caldo entornou.

Parece que o amor intenso, o sexo romântico e as milhares de coisas em comum que eles tinham ficaram pequenas perto da alergia quase patológica que ela desenvolveu à assinatura do papel.
É bem importante dizer que ela não era contra continuar dividindo o teto com o homem que amava. A urticária surgiu quando se acrescentou a idéia de compromisso assumido perante outros.
Até um inocente brincadeira com velhos vestidos de noiva acabaram causando violentas alergias à pele daquela mulher acostumada a ser livre, mesmo que isso jamais tenha significado promiscuidade.

Fiquei pensando se eu já tinha vivido algo assim.
Graças a Deus a cena mais parecida com isso que vivi foi a resistência de uma namorada a me incluir na sua vida. Tentei durante algum tempo e acabei tendo que desistir: ela terminou comigo, seguiu sua vida e depois foi embora para se casar.
Não houve tempo para alergias, urticárias e coisas afins.
Não houve a oportunidade de colocar na balança os sentimentos que se tinha e o incômodo de se considerar casado.

Sinceramente, não tenho medo de dizer ao mundo que estou casado. Não acho que isso signifique que perdi alguma coisa ou que vou ter que abrir mão do melhor vida.
Atualmente meu pensamento é exatamente o contrário. Cada vez mais penso em casório com um ganho, uma troca com vantagem.
Espero que o “adversário” esteja na mesma fase da vida e que não exista nenhuma possibilidade de encararmos o problema de sincronismo da Kerri e do Aidan.

quinta-feira, novembro 06, 2003

Classe nórdica

A elegância daquela menina começa no nome.
Por muito tempo pensei que aqueles trações delicados viessem da Dinamarca, terra das loiras esculturais, do Aqua (aquele da música Barbie Girl) e da estátua da sereia na entrada do porto da capital.
Foi só recentemente que descobri que estava enganado. Aquele nome classudo vinha de um terra um pouco mais ao norte, do mesmo lugar de onde veio o Abba, as loiras ainda mais maravilhosas e um povo que adora os brasileiros. Diferente do que eu pensava, ela era sueca!!

Se bem que isso muda muito pouco o meu relacionamento com ela.
Dinamarquesa ou sueca, a minha admiração pelo jeito de ser daquela menina delicada permanece o mesmo. Gosto especialmente da forma educada com que ela expressa a sua opinião. É fácil conversar com ela por que não existe o risco dela aceitar a sua opinião simplesmente por que você é homem ou por que ela é bem mais jovem. Se houver motivo para discordar, educadamente ela dirá que não concorda e explicará o por que.

Demorei um pouco para me acostumar com isso.
Confesso que no começo eu achava que ela seria outra menina bem criada que prefere não criar polêmica e agradar antes de tudo. Eu sentia que ela seria outra menina bonita, perfumada e elegante que não teria muito a dizer por medo de não agradar.
Só depois de conhecê-la melhor, de conversar mais longamente sobre assuntos diversos e de atender aos seus convites para ir à igreja aos domingos é que encontrei a verdadeira mulher por trás daquelas bochechas rosadas. Para minha surpresa, aquela mulher tinhas bastante personalidade e opinião. Gostei muito dessa descoberta e hoje faço questão de conversar com ela quando quero entender melhor alguns assuntos, principalmente no que diz respeito a meninas do perfil dela.

O engraçado da nossa amizade é que tudo começou com o namoro da irmã mais velha dela com o irmão mais novo do Presidente. Já falei sobre isso em outras ocasiões e não tenho muito a acrescentar.
Na época em que a encontrei, os irmãos já não estavam mais juntos e a vida de todos havia mudado demais. Por ser alguns anos mais jovem do que a gente, ela sempre viveu momentos diferentes, mas agora essa diferença tem pouco significado e podemos compartilhar o que estivermos a fim.

Uma coisa engraçada do passado foi quando tentamos aproximar uma amiga dela do nosso amigo uruguaio. Parece que houve interesse de ambos os lados, mas o velho é bom “relacionamento anterior” fez com que ela não abrisse a porta para que ele tentasse entrar.
Foi uma pena que não desse certo. Acho que eles teriam formado um belo casal.

Hoje em dia não temos mais essa preocupação. Nossos amigos estão todos trilhando seus próprios caminhos e podemos concentrar nos nossos próprios momentos.
O fato dela ter se aproximado do Presidente só ajudou para que os momentos com a minha mineira ficassem ainda mais gostosos. Nós quatro sempre nos divertimos muito e ainda temos planos de fazer muito mais.
Gosto muito dela e acho que nunca tive a oportunidade de dizer o quanto.
Talvez agora eu consiga e espero que ela curta o gesto.
Espero também que ela curta a idéia de boa parte das minhas preces quando vamos juntos à igreja sejam destinadas à ela, sua saúde e sua felicidade. Na minha opinião, poucas pessoas merecem tanto.

quarta-feira, novembro 05, 2003

Cores diferentes

Quando eu era um moleque um pouco menos asseado do que sou agora, existia uma piada de muito mau gosto a respeito da anatomia sexual das mulheres orientais.
Não tenho coragem de repetir a piada aqui, mas garanto que não daria para ninguém se sentir elogiado ao ouvir a barbaridade de alguém.

Depois que engordei um pouco (por que crescer eu nunca consegui) acabei tendo oportunidade de comprovar a velha lenda da infância, mas infelizmente não consegui. Fiquei a ponto de matar mais um fantasma de repressão infanto-juvenil, mas na hora H a moça pulou fora.
Na verdade não foi uma só.

O relacionamento com aquela veterinária baixinha tinha tudo para dar certo. A sua mãe era japonesa e seu pai alagoano, acho. A mistura resultou em um rostinho meio redondo e em um sorriso lindo de se ver.
A gente gostava das mesmas músicas, curtia os mesmos filmes, gostava de bares mais tranqüilos, conseguia conversar sobre um monte de coisas, planejava as viagens que viriam e adorava o gosto do beijo do outro.
Ela foi uma das poucas com quem eu não senti pressa em passar da fase dos beijos. Podíamos ficar horas e horas só mudando a forma e a posição do beijo. Não rolavam toques nem apertos, apenas o contato dos lábios e o roçar das línguas.
Não era falta de tesão. Era simplesmente vontade de curtir o beijo.

A gente se conheceu no curso de inglês, mas só fomos começar a sair no segundo estágio que fizemos juntos. Uma colega nossa adorou saber que a gente estava junto e torceu muito para que desse certo.
Na verdade, até hoje não sei bem o que rolou. Sei que a gente saía há cerca de um mês quando senti vontade de oficializar a coisa. Queria romper a minha barreira pessoal e chamá-la de namorada. Ela não devia ter os mesmos planos e disse que preferia que a gente continuasse do jeito antigo.
Obviamente a coisa degringolou antes do namoro, do sexo e da intimidade maior.

A outra experiência oriental aconteceu com uma comissária de bordo que vinha de Suzano. Coincidentemente, a mãe dessa menina também estava morando no Japão e ela estava sozinha em Sampa.
Desta vez o curso era da japonês (um dos meus desvarios lingüísticos) e ela era mais alta e bonita. As diferenças terminaram por aí: foi só eu dizer que queria algo mais do que cinemas e bate-papos para ela inventar mil desculpas e sumir.
Mais uma vez fiquei longe da cama e do coração de alguém com sangue oriental.
Neste caso foi mais fácil aceitar já que ela era bem menos legal do que a veterinária.

Não posso terminar esta estória sem mencionar outra lenda sexual da minha infância.
Alguns amigos fingidamente experientes diziam que mulheres de sangue negro eram muito mais selvagens e ativas embaixo dos lençóis.
Apesar de não ser especialmente curioso, não perdi a oportunidade de provar um pouco do gosto da África e posso dizer que não existe um padrão.
Se aquela moça de cabelos curtos, cintura fina e voz delicada me trouxe ótimas experiências, a nutricionista de Natal foi mais um erro do que um acerto.
Infelizmente fui eu quem errei ao não tratá-la do jeito certo. Desde o começo eu a mantive afastada da minha vida até o momento em que decidi que ela deveria sair.
É engraçado dizer isso já que ela mal entrou, mas não conheço outra forma de dizer que decidi não vê-la mais.
Espero que nenhuma delas tenha sofrido e que ambas estejam felizes hoje.
É meio piegas dizer isso agora, mas nunca tive intenção de magoá-las.
Fiz o que sentia vontade. Experimentei o que quis e retribuí o carinho da melhor forma que pude.

Valeu experimentar o sabor diferente e eliminar as besteiras da infância.
Se tiver que escolher a minha favorita, a vencedora de longe é a veterinária. Espero que seu casamento esteja indo bem e que Ele garanta o recebimento da felicidade que ela merece.