segunda-feira, novembro 13, 2006

Sonho

Nosso sonho tem cerca de 100 metros quadrados.
E tem sacada para as plantas, quarto para o herdeiro, duas vagas na garagem e lugar para as minhas revistas.
Não posso me esquecer do maleiro para as bolsas, dos dois banheiros e da cozinha ampla, com janelas e separada da sala e da lavanderia.
Nosso sonho é assim, nem mais nem menos.

E além de sonho, ele é data, já que sabemos quando vai acontecer: setembro do ano que vem, salvo mudanças significativas na conjunção das galáxias.

Mas como é que um sonho pode ter tantas especificações?
Não costumamos descrever sonhos como cenas meio nubladas, mudas e, normalmente, pouco ou nada relacionadas à nossa realidade?
Pode ser, mas como o sonho nosso, temos total liberdade de levá-lo para onde nos der na telha.
Por isso, nosso sonho é nosso novo castelo, onde não teremos fosso, torres ou arqueiros nas muralhas, mas que ainda assim nos oferecerá segurança, calor e felicidade.



Não que o castelo atual não nos ofereça isso, mas é que precisamos de um pouco mais de espaço para quando o Labrador chegar.
E depois que ele chegar, nosso sonho mudará de tamanho, forma e lugar, talvez indo um pouco mais para o Sul e chegando mais perto mar, mas continuará sendo o nosso sonho, meu, da minha mineira, do Labrador e do Golden.

sexta-feira, outubro 20, 2006

Inferno astral é o cazzo

Estou a duas semanas de completar 35 anos e admito que não estou muito feliz.
Não que eu esteja preocupado com o passar dos anos ou com o acúmulo de tecido adiposo em determinadas regiões do meu corpo, mas é que desde que voltamos da viagem de férias, as coisas têm andado meio fora do prumo.
Ok, admito que a gordura me incomoda e que fico envergonhado de andar por aí sem camisa, mas certamente esse é o menor dos meus atuais problemas.

Não bastasse o apoio que tenho que dar à minha mineira por conta da insegurança que pintou sobre as decisões que tomamos na sua vida profissional, ainda tenho que lidar com minha própria desmotivação no trabalho (mais detalhes lá na Firma), com o eterno desequilíbrio nas nossas finanças e com a constante mudança nos planos que fizemos logo depois que nos casamos.
Muito pouca coisa está no lugar e temos que dar um jeito nisso logo.

Se eu fosse um pouco mais supersticioso, diria que estou no meu inferno astral e que tudo vai começar a se arranjar logo depois que Novembro chegar.
Como nasci, cresci e engordei sendo impaciente, não vou ficar esperando esse raio de inferno astral passar e vou dar um jeito na vida.
Tenho que voltar a dar as ordens no "boteco" e não deixar o mar me levar para onde ele quiser.
Obviamente que isso não é nada fácil, mas se eu não tiver nem a idéia de começar, nada vai evoluir, certo?

Portanto, vou dar uma de Constantine, chamar o Lu para conversar e dar uma bela patada naquele traseiro vermelho e incandescente.
Que ele arrume outro lugar para enfiar esse tal de inferno astral.

quarta-feira, outubro 18, 2006

Playbas

Na época da faculdade, a turma estava dividida entre três grupos mais ou menos coesos: os playboys, os de classe média e os judeus.
Pensando na minha origem proletária e nas opções disponíveis, não havia como não fazer parte do segundo grupo.
Considerando o isolamento natural do segundo grupo (ainda mais lembrando que a escola ficava praticamente no coração de Higienópolis) e as desventuras de classe média que vivo contando por aqui, achei que teria mais graça falar dos projetos de playboy que eu tinha como colegas e como eles evoluíram para os socialites, jogadores de pólo, pegadores de modelos e apresentadores de TV de hoje em dia.

Algo que era impensável para nós, moradores da Zona Norte, era quase que obrigatório para eles: o carro próprio.
Muitos ainda não tinham idade, mas já exibiam alguns Kadett GS, Gol GTI, Escort XR-3 e Saveiro equipadas. Ainda não existia a onda dos carros "tunados", mas eles caprichavam nos adesivos de surfe, nas rodas de liga leve e nos bancos Recaro.

Como eu não fazia parte da turma, foi curioso que um típico representante da classe dos playbas se tornasse meu melhor amigo.
Se dependesse de mim, acho que não teria rolado. Sou meio sectário com esse tipo de coisa e sou difícil de me misturar. Mas como nos encontramos por acasos profissionais, acabamos nos aceitando mutuamente e construindo uma relação de irmãos até hoje.
Foi essa relação que me apresentou ao mundo do Shopping Iguatemi, da Limelight, do antigo Cabral (aquele que ficava em uma travessa da Cidade Jardim) e das noitadas experimentando toda sorte de destilados disponíveis na casa.
Ah, foi com a companhia dos anteriormente odiados playboys que descobri o sexo pago, mas isso é uma estória completamente diferente.

O que ficou disso tudo é que a maioria desses bem nascidos acabam se comportando de forma bastante coesa e até previsível, mas alguns deles ainda assim acabam fazendo algo "que preste" e que faça a diferença.
Um exemplo e um contra-exemplo disso são dois nomes que sempre estão nas bocas dos "formadores de opinião" e nas páginas das mais variadas complicações.
Enquanto um apresenta um programa de televisão pouco criativo, mas bem divertido, é casado e aparenta ser um pai amoroso, outro se limita a dois esportes básicos típicos da classe: jogar pólo e pegar mulher.

Huck e Mansur são dois extremos da turma dos endinheirados e por isso não consigo admirá-los ao mesmo tempo e pelas mesmas razões.
Gosto sinceramente do primeiro e tenho inveja do segundo.
Nada mais que isso. Simples inveja pelas Bundchens, Piovanis e demais objetos do desejo que frequentemente passam pela cama dele.
Mas é só isso. Inveja pura.
Em se tratando de sentimentos, é melhor admirar o Huck, o Joaquim e a menina da pinta, uma típica família endinheirada, jovem e bonita.

Um dia a gente chega lá, não é mesmo, minha mineira?

sexta-feira, outubro 13, 2006

Distância

Era uma conversa natural para eles. Amigos costumam ter esse tipo de conversa, costumam ser um pouco mais do que colegas, mesmo que o fator integrador seja o ambiente de trabalho.
Não costumava entender esse tipo de relacionamento e antipaticamente, acabava me isolando e deixando todos eles lá dentro do escritório quando ia para casa.
Mas um dia resolvi mudar e não me arrependi.
Eles me receberam de braços abertos e falaram das suas intimidades.
É como eu já disse: era normal para eles.

O assunto do almoço eram os relacionamentos à distância. A organizadora da conversa era uma menina que mantinha um relacionamento bissexto com um rapaz que morava no paradisíaco sul da Bahia, na não menos paradisíaca Cumuruxatiba.
Tudo havia começado ali mesmo, na beira da praia como mais um dos milhares de amores de verão que acontecem todos os anos, mas algo aconteceu e o amor subiu a serra, entrou no avião e continuou mesmo na doideira de São Paulo.
E eles continuam se amando até hoje, mesmo com encontros a cada dois meses ou em feriados prolongados.
Fica até chique ela dizer que passou a Semana da Pátria no sul da Bahia enquanto os pobres mortais não vão além do Guarujá. É chique e romântico.
Assim como eu, ela apostou no relacionamento e deixou de lado a dificuldade e a distância.

Obviamente, esse tipo de amor carece de muita confiança e compromisso e foi aí que entrou o comentário de um outro colega, que não acredita em amores entre extremos de São Paulo, quanto mais em estados ou regiões diferentes.
Para ele, o amor necessita de contato para viver e se manter e sem esse contato, tudo acaba se limitando a um sonho que morre aos poucos.
Ele não é tão radical quanto alguns amigos do coração que buscavam namoradas dentro do mesmo bairro, mas acaba seguindo mais ou menos a linha deles.

Por mais estranho que pareça para um cara que foi buscar a esposa lá nos confins do Triângulo Mineiro, eu concordo em parte com essa afirmação. Acredito que o amor não se sustente sozinho e necessite da rotina, do sexo e até das brigas para se manter vivo e prosperar.
Mas a acredito também que é possível encarar um projeto de amor à distância, desde que se tenha a perspectiva adequada de intensidade, objetivos e futuro.
Ou seja, se o amante achar que vale a pena, a distância em si não é suficiente para impedir o amor de acontecer e virar felicidade.
Foi exatamente isso que fiz ao dedicar mais de três anos da minha vida a um relacionamento baseado em 600km de estrada, encontros quinzenais e felicidade crescente. Para mim, ou melhor, para nós valeu o sacrifício.

É por isso que, mesmo acreditando que não exista distância para o amor, estou certo de que nem todo amor valha a pena. Tudo depende do grau de disposição dos amantes.
Uso aqui o termo amantes no sentido de pessoas que amam e não para me referir a pessoas que fazem o papel de terceira parte com relação a um dos membros de um casal.
Amante é quem ama e para amar é preciso disposição, vontade e, óbvio, amor.
Podem existir outros componentes mas julgo que esses sejam os essenciais, sem os quais a estória não acontece.

Para os nao dispostos, melhor amar perto de casa, do trabalho, da padaria.
O que me lembra de uma frase dita por uma pessoa que amei e que hoje mora nas minhas lembranças: os opostos se distraem, os dispostos se atraem.

Amor não é nada sem disposição.
Essa mesma disposição encurta distâncias e diminui saudades.
O resto é como arroz e purê: apenas acompanha.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Contas e mais contas

Poucos assuntos são mais apropriados para um retorno de férias do que o desequilíbrio financeiro de um jovem casal.
Por mais que ambos tentem se policiar e agir de forma austera e econômica, a vontade de comprar aquela "coisinha" que vai ficar perfeita na prateleira da sala ou o DVD daquela banda do coração que você procurava há anos é maior do que qualquer coisa e as administradoras de cartão de crédito acabam agradecendo a preferência. Sim, por que se não fossem aqueles pedacinhos de plástico, minha carteira teria que andar com o dobro do peso para acomodar os talões de cheque ou as notas de cinquenta.

Não bastasse esta vontade de agradar o outro (e a si mesmo) nos 365 dias de lua de mel que costumam acontecer com qualquer casal, eu e minha mineira tivemos que lidar com uma gostosa, mas relativamente custosa viagem à minha terra natal, com direito a alguns mimos para os amigos e, claro, um monte de mimos para a gente.
Não deu para controlar. Foi mais forte do que a gente e nem o temor pelo excesso de bagagem nos impediu de trazer 16 garrafas de vinho e uma batelada de pacotes de geléia. Tudo em nome da exclusividade do produto.

Nem é preciso dizer que esta brincadeira bagunçou ainda mais a nossa já combalida micro-economia, cada dia mais e mais micro.

Tenho que admitir que nossa vida já foi mais afetada por este assunto.
Logo depois que nos casamos, minha mineira perdia noites de sono pensando em juros, empréstimos e prestações atrasadas. Demoramos cinco meses para parar de gastar nossas economias, bem a tempo de assitir ao final delas.
Foi por pouco, mas não precisamos recorrer a financiamento externo. Pelo menos por enquanto.

Infelizmente nosso equilíbrio é apenas relativo.
Não estamos fazendo dívidas que rendam juros imorais, mas também não economizamos um centavo. Tudo que ganhamos vai para pagar as contas da casa, do carro, dos cursos e da diversão que ainda nos permitimos ter. Somos teimosos nisso e achamos que não vale a pena desistir de curtir alguns poucos e bons momentos felizes em troca da manutenção de algumas dezenas de reais. Aí também não, né?

Ainda estamos em busca da fórmula ideal, aquela que não nos obrigue a vegetar e também não faça com que a gaveta de CDs (ou a de sapatos) não tenha mais espaço para as novas aquisições.
Segundo o Professor (que viveu algo parecido enquanto a esposa trilhava o caminho acadêmico), a coisa deve se acalmar lá pelo início do ano que vem.
Isso é um alívio, mas eu e minha mineira não nos conformamos muito com a situação e queremos ver o azul nas nossas contas ainda este ano.
É exatamente aí que está o desafio.
Por que se fosse fácil, qualquer um faria.

Que venham os números, as contas e as planilhas de controle.
O que vier, a gente traça.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Voltei das férias...

...mas post novo só na sexta.

Afinal de contas, preciso descansar depois de três semanas de comer-beber-viver.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Volto já

Fui ali visitar os parentes e matar saudades da terra natal.

Vejo todo mundo em Outubro.

Tenham juízo, mas com moderação.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Um ano depois

Eu e a minha mineira estamos completando um ano juntos.
Quer dizer, um ano legalmente juntos, por que este passeio a dois já dura quase cinco belos anos.
Como estamos meio apertados em termos orçamentários (falo sobre isso em outro post) resolvi aproveitar a sua ausência em um curso e preparar uma produção caseira, mas caprichada.
Ralei e corri muito, mas consegui o sorriso que buscava e isso não tem preço.
Além da produção, escrevi uma cartinha, um texto simples para dizer o que aquele dia significava para mim.
E o significado ficou mais ou menos assim:

Para a mulher da minha vida.

Hoje faz um ano que você mudou a minha vida de vez.
Há exatos 365 dias atrás, mais ou menos nesta mesma hora, eu estava curtindo um dos momentos mais felizes da minha vida e não tinha idéia de que a coisa poderia melhorar ainda mais.

Eu estava com meus amigos do peito, com meu velho pai e com dois tios do coração, falando e rindo, comendo e bebendo, feliz por estarem todos ali por mim. Minto, eles estavam por nós e o sorriso no rosto de cada um deles quando você caminhou na minha direção na igreja foi a melhor prova disso.

De lá para cá ambos aprendemos e ensinamos muito. E cuidamos um do outro como eles disseram lá no curso de noivos, lembra?

Espero que o que vivemos nesse primeiro ano se repita e multiplique nos outros anos que virão. E espero até que os problemas não sumam para que seja ainda mas gostoso vencê-los e te fazer feliz.

Paciência com esta criança que te ama é só o que te peço.

E que Ele cuide do resto.

Obrigado por tudo.

De quem te ama mais do que a vida,

E

segunda-feira, setembro 04, 2006

Beleza

Para um sujeito que sempre foi conhecido por seus gostos pouco convencionais, seja para mulheres, seja para música, até que a escolha da minha mineira foi bastante comportada e "dentro do padrão".
Loira, magra, jovem, bonita, simpática e de cabelos longos: tudo isso é a minha mineira, o que certamente a habilita a acompanhar qualquer ser humano do sexo masculino que tivesse um mínimo de juízo na cabeça.
Mas novamente reforço que minhas escolhas nunca foram muito ajuizadas e comportadas no que se refere à beleza feminina.

Sempre gostei de cabelos curtos, curtíssimos na verdade, bem ao estilo joãzinho que marca algumas personalidades fortes e independentes. Deve ter algo a ver com competição e autonomia. Não foi à toa que a minha mineira chegou perto da calvície só para me agradar.
Também gosto de pescoços longos, peles brancas, sobrenomes italianos, rostos sardentos e curvas e volumes nos lugares certos.
Ah, corpos mais magros do que manda o padrão brazuca também sempre fizeram a minha cabeça.


Teresa Salgueiro


Somando tudo e achando o MMC, acho que o que me agrada é a falta de padrão e nisso acho que a Teresa Salgueiro do Madredeus se encaixa bem.
Dentucinha, portuguesa, cabelo permanentemente preso em um coque, casada, supostamente fofinha, já que nunca a vi sem aqueles vestidos folgados e quentes.
Meu velho pai não gosta muito dela, mas eu a adoro.
Não a vejo (ou ouço) a séculos, mas continuo fâ incondicional da mulher e da banda.


Débora Falabella


Outra eterna "favorita" é a "Sinhá Moça" Débora Falabella.
Neste caso a coisa é um pouco mais hard já que a moça é pequenina e delicada, como convém aos meus objetos de desejo.
E além de linda, ela adora companheiros à altura. Que o digam os sortudos Daniel de Oliveira e Chucky, atual marido da mocinha.


Maria Flor


Mais recentemente descobri a Maria Flor e ganhei mais uma razão para acompanhar a novela das oito.
Mal sabia a minha mineira que as cenas que mais me interessavam eram as que traziam a pequenina e "sem gracinha" Taís.
Quer dizer, sem graça são os que não a acham maravilhosa e vitaminada.

E só para encerrar esta pequena homenagem às meninas que fazem esta vida valer a pena, não podia faltar aquela que divide meu Olimpo estético com a minha mineira, aquela que foi a primeira e que seguirá sendo a preferida dos meus gostos.
Salve Winona, sua cleptomania, seus namorados roqueiros e seus filmes fraquinhos.
Não ligue para eles. Certamente eles não sabem o que dizem.


Winona, the queen

sexta-feira, setembro 01, 2006

Espectador

Ela precisou de quase quarenta aniversários e inúmeras paixões para se acertar e convencer de que eu tinha razão.
A resistência foi forte, a tristeza teimou em morar com ela, mas eu venci, com persistência, teimosia e uma certa intolerância, eu venci e matei no ninho a decepção e a idéia de desesperança com relação ao amor.
Na verdade, sendo bem sincero, eu não tenho tanta participação assim. Fui mais um inspirador do que um fabricante de esperança, mas o agradecimento dela é sincero e minha felicidade também.
Ela desarmou o coração, viveu feliz e atraiu a felicidade de outra pessoa.
Agora o casamento está marcado, a mudança de vida está ensaiada e a saudade começa a ser acumulada. Cincinatti e Bombain não são bem ali na esquina.

Gostaria muito de compartilhar essa felicidade com ela, mas um casamento na Índia não combina muito com nossos planos de austeridade para suportar o aumento da família.
Passar duas semanas do outro lado do mundo seria uma ótima maneira de acompanhar o início de outro capítulo de uma estória que acompanhei desde o início, mas acho que ela entende as nossas limitações.
Nem mesmo o Professor, do alto da sua desorganizada independência e tranquila liberdade financeira, cogita uma esticada indiana. A brincadeira é pesada demais, apesar do significado sentimental.

Na verdade, eu estou assistindo a essa estória desde antes do seu início, desde que ela encontrou e se perdeu de outro amor e desde que largou tudo para viver o sonho da vida acadêmica.
Mesmo que não sejamos muito próximos no sentido físico, eu estava lá todo o tempo e seguirei fazendo o possível deste lado do vôo continental.

E pensar que tudo começou com um "desarma o coração e vai"!

quarta-feira, agosto 30, 2006

Redenção

Nem me lembro quanto tempo fiquei sem abraçar a minha irmã até que o meu casório viesse e proporcionasse a "redenção" para ambos.
A sua mudança para a terra natal não ajudou em nada a nossa aproximação e nem a minha viagem em 2004 adiantou: ela não estava em casa quando a visitei e não conseguimos nem conversar.

Muito tempo e muita mágoa depois, tive a felicidade de vê-la no casório e, obviamente, a minha querida Lelê era um dos principais motivos dessa felicidade.
Eu só não a abracei e beijei como devia por que havia outra pessoa merecendo a minha atenção e era complexo demais inverter as atenções.
Acho que ambas entenderam bem as minhas razões.

Com a nova viagem que estamos prestes a fazer vem uma nova chance de redenção, bem mais simples do que as anteriores, mas ainda assim uma situação delicada.
Agora existe mais um sobrinho para receber meu amor. O irmão da Lelê precisa ser apresentado ao tio "do Brasil" e precisa receber um abraço apertado e um pouquinho do dengo que sobrar da "primeira sobrinha".
Sim, por que de falta de dengo meus sobrinhos não vão sofrer.

Acho que ambos, eu e minha irmã, estamos mais maduros e dispostos a resolver as nossas diferenças.
Quer dizer, resolver aquelas que permitem a nossa convivência, por que dos nossos temperamentos ninguém pode cuidar.
Eu serei sempre o quadradinho e ela será a rebelde, com ou sem causa.
Nem me importo muito com isso, apenas aceito a realidade.
E espero que ela também aceite a idéia de que para ver a minha avó vale tudo, até visitar os tios, que de queridos substitutos dos pais, passaram a desafetos mútuos.
Um grande problema, mas com solução bem simples.
Basta seguir aceitando as diferenças e aproveitar a parte boa.
Do resto, a terra natal toma conta.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Como criança

"O que eu mais gostei foi o número das trapezistas!"
"Eu adorei o da equilibrista chinesa!"
"Ah, não! O mais divertido foi o do pessoal das cordas elásticas!"


Conseguir um consenso sobre a melhor atração do Cirque du Soleil era tarefa grande demais para mim e por isso nem tentei.
Simplesmente aceitei todas as opiniões que recebi e formulei a minha própria.
Esse tipo de confusão é perfeitamente comum em quem acaba de sair da grande tenda depois de Saltimbanco. Não há outro nome para definir aquelas duas horas de pulos, saltos, equilíbrio e diversão: espetáculo!



E eu, como sempre adorei o circo, parecia uma criança na primeira vez que via os palhaços e os trapezistas!
De certa forma foi uma primeira vez já que eu nunca tinha visto nada sequer parecido com o da companhia canadense.
Se alguém tivesse me filmado durante o show veria uma sequência interminável de queixos caídos, palmas entusiasmadas e olhos arregalados a cada salto inacrditável ou acrobacia inesperada.
Me diverti como nunca!

Quer dizer, quase como nunca.
Segundo a minha mineira, que obviamente estava ao meu lado, somente em uma ocasião ela me viu tão eufórico quanto no Cirque: foi no show do U2, mas aí era uma coisa obviamente mais sentimental do que surpreendente.
Depois que ela me disse isso, acabei me lembrando de outra ocasião em que fiquei tão animado com uma demonstração de arte: a primeira vez que vi o Fantasma da Ópera em Londres. Fiquei dias lembrando dos candelabros que saiam do chão e do barco que "navegava" por cima do palco envolto em névoa. Absurda e inexoravelmentre espetacular.

Quando chegamos em casa, encontramos com o marido da minha cunhada, que nos perguntou a respeito do custo-benefício do espetáculo.
Como esse tipo de afirmação é natural nele e tudo tem que ser traduzido em grana e economia, resolvi relevar (mais uma vez) e simplesmente afirmar que valia cada centavo e que eu pagaria o mesmo quantas vezes fossem necessárias.
Era tudo verdade e minha noite terminou nas nuvens.
Ou melhor, no picadeiro, por que eu também sou de circo.
E que venha o show do ano que vem.
Eu e a minha mineira já estamos lá!

sexta-feira, agosto 25, 2006

"Acorde arrependido, mas não durma com vontade"

Li essa frase no fotolog de uma amiga muito querida e achei interessante comentá-la.

Acho que ela tem a ver com um certo desejo reprimido de rebeldia e liberdade que tenho aqui dentro.
Tem a ver com a vontade de fazer o que me dá vontade sem pensar nas consequências, críticas ou comentários.
Tem a ver com uma liberdade que a minha criação não permitiu e que minhas escolhas não deixaram prosperar.
E não estou reclamando da minha vida.
Apenas noto esse desejo e essa sensação de "travamento" no meu trajeto.

Sou sincero quando digo que não me arrependo do que fiz, mas também falo a verdade quando digo que teria sido mais fácil viver sem tantas amarras.
Talvez não tivesse sido tão bom, mas certamente seria mais fácil.

Mas o que fazer?
Que o próximo da fila venha e busque essa liberdade.
E que eu consiga ajudar o herdeiro a chegar onde ele (ou ela) quiser.
Independente do destino, independente do caminho.

Valeu pela inspiração, Senhorita Staut.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Crescei e fugi

Quando mais o tempo passa, mais me sinto à vontade com a idéia de ser pai e paradoxalmente, mais me apavoro com isso!
Fico efetivamente aterrorizado quando penso que não mais terei o conforto de cuidar somente da minha mineira (sempre) e de mim mesmo (de vez em quando).
E não adianta os amigos me dizerem que é bom, que vale a pena e que eu vou gostar.
O medo me abandona e não vai me abandonar tão cedo.
Nem imagino quando isso possa acontecer, mas desconfio que não vou descobrir isso tão cedo.
Como a chegada de um herdeiro é uma coisa inevitável no meu relacionamento (quem mandou casar com uma mulher que nasceu para ser mãe?), tenho que começar a tratar essa paúra e dar um jeito de controlá-la.

Tenho certeza que alguém se pergunta de onde virá esse medo e não tenho nenhum problema em dizer que meu medo tem dois nomes: mudança e incompetência.
O medo da mudança sempre acompanhou a minha vida desde que eu dava cabeçadas na minha mãe e na minha avó, mas o medo da incompetência é relativamente novo e tem a idade da idéia de ser pai.
Trocando em miúdos, tenho medo de ser incompetente para criar o herdeiro e impedir que ele se transforme e um vagabundo egocêntrico ou uma descerebrada fútil.
Tenho medo de não conseguir controlar a criança e de me tornar exatamente o tipo de pai permissivo e incapaz que eu tanto critico.
Tenho medo de ter alguém dependendo inteiramente de mim para tudo.
Tenho medo da paternidade em si.

Tenho tantos exemplos e contra-exemplos do que fazer e do que não fazer que não consigo formular uma boa idéia na minha cabeça.
Não consigo me organizar e separar as atitudes em boas e más para a criação da criança. Simplesmente não consigo.
E mesmo que conseguisse, fico com a impressão de que tudo o que eu planejar e preparar será imediatamente jogado no lixo no primeiro momento em que o herdeiro chorar de fome ou na primeira vez que dizer que me ama.
Para isso não existe treino.

Ai que meda!

segunda-feira, agosto 21, 2006

Pirlimpimpim

Ainda ontem eu jogava bola em um campo de terra batida ao lado da minha casa, assistia a meus amigos soltando pipas (por total falta de habilidade com linhas e papel de seda), rodava peão e ficava revoltado com o tratamento que a Maria Joaquina dava ao pobre Cirilo na novela Carrossel.

De repente, algum desavisado berrou "pirlimpimpim" e eu me vi aqui, 34 anos, casado, funcionário de uma multinacional, cheio de planos, ainda mais cheio de limitações, transformado em uma "manteiga derretida" (choro até com os depoimentos do final de "Páginas da vida") e completamente incrédulo com a transformação da tal Maria Joaquina.

A moça cresceu (muito) e seguiu aparecendo, mais ou menos como todos nós.
Complicado aceitar isso. Quer dizer, todo mundo cresce e isso não tem nada de esquisito, mas é complicado começar a pensar em tudo o que você fez e, invariavelmente, no que deixou de fazer.
Dá vontade de voltar e tentar de novo, decidir coisas diferentes e usar o conhecimento que temos hoje.
Não tem quem não afirme que teria muito mais sucesso no amor, no trabalho e mesmo na vida se pudesse viver aquilo novamente, mas com mais informação.

Feliz ou infelizmente isso não é possível e temos que lidar com nossas realidades, decisões e responsabilidades.
É assim que funciona e não há nada a fazer a não ser seguir em frente e sonhar.
Não que isso seja ruim já que sonhar (ainda) é de graça.

Foto: Terra

sexta-feira, agosto 18, 2006

Prateleiras de metal

Desde que me mudei, minha coleção de revistas em quadrinhos virou um caos.
Anos e anos de fanatismo "literário" estão reduzidos a caixas de papelão mal acondicionadas e ao desmoronamento das prateleiras de metal de um quartinho no apê da minha mãe.
Eu já havia parado de comprar as revistas muito antes de me casar, mas isso não diminuiu o aperto que senti quando tive que deixar aquilo tudo na casa antiga.
Consegui salvar os CDs, minha outra paixão, mas isso não fez a dor diminuir.
Doeu um monte e ainda dói. Sempre é complicado entrar naquele quartinho.

E não pensem que sou um obcecado. Longe disso. Sou muito consciente da pouca importância que aquilo tudo tem para a paz mundial e para a economia global.

A quem quero enganar?
Quem quer saber de paz e economia quando tem nas mãos o "Cavaleiro das Trevas" ou "Elektra Assassina"?
O fascínio das páginas coloridas supera qualquer coisa. Talvez não supere o sexo, mas chega bem perto.
Não me interessa o Líbano, Israel ou o PCC! Me passe a edição encadernada de "Crise nas infinitas terras" e me deixe sossegado. Ainda não decorei todas as falas e tenho que fazer isso antes que a saga complete 20 anos.

Ops! Parece que surtei e peço desculpas por isso.
É que fico emocionado quando me lembro da coleção e do seu entorno sentimental.
Só quem passou por isso sabe do que estou falando.

Minha mãe já começou a mudar as caixas de revistas para um lugar não identificado e não fui me despedir. Todo mundo sabe que seria demais me pedir isso.
É melhor que elas se vão e que eu não saiba onde encontrar minhas edições originais de "Watchmen", "Ronin", "Asilo Arkham" e "A piada mortal".
É melhor que eu siga minha vida e me conforme com as limitações espaciais dela.



Mas ai de quem destruir essas revistas antes de eu conseguir um espaço para elas na casa que ainda vou comprar.
Nem Galactus salvará essa pessoa da minha ira!

quarta-feira, agosto 16, 2006

Ditaduras

Fomos ver Zuzu Angel.
Minha mineira gostou do filme mais do que eu, é verdade, mas não saí do cinema contrariado ou decepcionado.
Ao invés disso saí pensativo, com uma coisa martelando na minha cabeça.
Sempre ouvi dizer que a ditadura aqui no Brasil foi muito mais branda do que a que aconteceu no Chile e na Argentina. Diziam que o que houve aqui foi brincadeira de criança perto das barbaridades do Estádio Nacional de Santiago e dos homens que derrubaram Allende.
Não me lembro se foi meu velho pai que me passou essa idéia, mas depois que saí do cinema fiquei me perguntando de que forma algo pode ser pior do que aquilo.


O companheiro Allende eternizado


Usando um pouco da minha tradicional racionalidade e considerando que parte daquilo é ficção, ainda assim é complicado visualizar como a ditadura chilena pode ter sido pior.
Se foi, não quero nem imaginar o que aconteceu com meus compatriotas.
Não quero ter pesadelos com a constatação de que meus companheiros de carbono podem ser ainda mais cruéis e sanguinários.

Isso me lembra da animosidade que tenho para com os militares.
Eu sempre os chamo de milicos e, mesmo caindo na pouco inteligente vala da generalização, não me relaciono com nenhum deles. Quer dizer, tento fazer isso, mas nem sempre é possível.

Pensando por outro lado, acho que seria infindável uma discussão sobre a culpa que os militares não-oficiais teriam nas ditaduras.
Até que ponto eles só fizeram aquelas barbaridades para cumprir ordens?
Não havia nenhum componente de vingança em nenhum deles?
Existiria medo de preservar a própria vida e a da família?
Seria o medo e não a obediência e a crueldade a grande força motriz de torturadores e assassinos?

Difícil acreditar nessa versão, mas não pretendo seguir nessa discussão.
Prefiro voltar à sensação incômoda de que podem existir coisas piores do que as vistas no filme.
E ainda mais incômodo é pensar que pouca gente neste país se lembra ou se interessa pelo que houve.
Como esperar consciência política em um país onde muitos estudantes protestam sem saber a razão e se juntam a manifestações apenas para ficar com outros estudantes?

Bom, melhor seguir fazendo a minha parte e não tentar salvar o mundo.
Me confesso incompetente para isso, mas não desisto. Um dia a coisa funciona.

segunda-feira, agosto 14, 2006

Persistência

Em Janeiro de 2004 eu visitei a minha avó achando que seria a última vez.
Eu ainda estava solteiro e enchi a paciência dela para que desse um jeito de contornar os problemas respiratórios - ela tem calcificação nos pulmões, ou algo parecido - e pegasse um avião para assistir ao enforcamento, mas ela preferiu me abraçar em pensamento e rezar pela minha felicidade. Ela estava lá e meu Tata também. Todos eles estavam lá e viram a bagunça toda do dia mais feliz da minha vida.

Agora já é 2006 e minha velhinha, ou melhor, a velhinha da minha velhinha, continua por aqui controlando tudo e fazendo a alegria dos netos.
Vou visitá-la novamente e morro de saudades do seu colo.
Vou matar saudade do tempo em que morei com ela, aprendi a não comer gordura de bife, me viciei em pastel de choclo com açúcar e tomate e que acompanhei meu Tata no caminho para o descanso.

É bom saber que meus temores eram exagerados e que ela ainda tem muito amor para dar.
Só vou ter problemas com a concorrência dos primos menores que convivem muito mais com ela, mas acho que consigo dar um jeito de puxá-la para um canto e tê-la só para mim uma vez mais.
Ela é a única abue que me resta e tenho que caprichar no dengo.
Mas o capricho não é mais pelo temor e sim pelo amor.
Independente de tudo, ela estará lá onde sempre esteve e isso nunca vai mudar.

sexta-feira, agosto 11, 2006

Preparo

A temporada que a minha cunhada e a prole passaram em casa me obrigou a pensar sobre a existência de alguns pré-requisitos para um casal se assumir oficialmente.
Assisti a tantas discussões infantis entre ela e o marido, que fiquei desejando que houvesse uma cartilha que obrigasse as pessoas a amadurecer antes de partir para uma vida a dois.
Segundo essa cartilha imaginária, a pessoa deveria obrigatoriamente passar por determinadas experiências e demonstrar a sua aptidão para seguir ao nível seguinte.
A impressão que ficou é que eles são um casal de crianças que mora junto, brinca de casinha, cria outras duas crianças e que certamente seria reprovado nos exames que eu imaginei.

Ou isso ou eu estou colocando fé demais na maturidade das pessoas em geral.
Digo isso por que os problemas que eu tenho em casa são muito diferentes.
Sei que sou birrento e intempestivo, mas nunca deixei de me render a bons argumentos e a decisões que fossem benéficas para ambos.
Talvez eu mesmo tivesse dificuldades em ser aprovado pela minha cartilha, mas certamente o resultado seria um monte de casais muito mais preparados e um bando de crianças (no aspecto cronológico, que fique claro) muito mais equilibradas.
Estou sonhando alto demais?

quarta-feira, agosto 09, 2006

GLS

É realmente curioso, mas já faz algum tempo que não me sinto ofendido ao ser chamado de viado, bicha ou qualquer outra palavra que denote um comportamento homo da minha parte.
Faz algum tempo que entendo isso mais como um fato do que como um insulto, ainda mais sendo sãopaulino e tendo que aturar as brincadeiras dos rivais.
E não precisei sair do armário para conseguir isso. Apenas deixei de me preocupar com esse tipo de coisa e de acreditar que gostar de pessoas do próprio sexo é errado ou anti-natural.
Para dizer a verdade, o que me parece anti-natural é a frieza para matar pessoas (vide os casos Richtofen e Liana & Felipe) ou a falta de vergonha na cara de quem não dá a mínima para quem precisa de médicos e ambulâncias.
Nessa linha, deveria ser muito mais ofensivo chamar alguém de deputado do que de sapatão ou boiola.



Sou feliz com meus hábitos sexuais e com meu interesse apenas por mulheres, mas na infância, ser associado a qualquer coisa "não macha" era a pior das ofensas.
Alguns meninos chegavam em casa chorando e despertavam a ira irracional dos pais contra o mundo inteiro se algum amigo os tivesse chamado da mariquinhas ou coisa que o valha.
Era o fim do mundo para esta nossa cultura machista/latina/ibérica.
O mesmo vale para aquelas que eram chamadas de sapatas, brutas ou machonas.
Nada bom para a cabecinha delas.

Chegava a ser deprimente a reação dos pais quando se fazia alguma brincadeira questionando a sexualidade do filho: a descoberta de uma linha homo ou bi geraria expulsões, perda de direito a heranças e/ou internações psiquiátricas.
Como se isso eliminasse os laços de sangue e o amor nutrido pelo filho até então.
Realmente deprimente.

Mas como nem tudo são flores, paralelamente a esse meu desprendimento, ganhei uma preocupação potencial: como explicar para o eventual herdeiro meus conceitos de respeito à diversidade se nos ambientes de sociedade (escola, parques, festas) o homossexual continuará sendo tratado como marginal?
Fico pensando se vale a pena gerar esse tipo de confusão em uma cabeça infantil.
Questiono se não é melhor esquecer meu idealismo e proteger a criança através da ignorância.
Devo mesmo fingir que odeio bichas e que ele (ou ela) vai para o pelourinho se chegar perto de alguém do mesmo sexo?
Complicado demais para descobrir sozinho. Ao menos neste momento.
Melhor continuar vendo a novela das oito e torcendo pelo beijo gay do Edson Celulari.
Quero ver a galera do preconceito se indignando em nome da Ana Paula Arosio.